Trechos do ensaio de Perseu
Abramo
Padrão de ocultação
“É o padrão que se refere à ausência e à
presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não
se trata, evidentemente de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão
diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio
militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão
que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação,
isto é, da programação ou da matéria particular
daquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta. A ocultação
do real está intimamente ligada àquilo que freqüentemente
se chama de fato jornalístico. A concepção predominante
- mesmo quando não explícita - entre empresários e empregados
de órgãos de comunicação sobre o tema a de que existem
fatos jornalísticos e fatos não-jornalísticos e que, portanto,
à imprensa cabe cobrir e expor os fatos jornalísticos e deixar
de lado os não-jornalísticos. Evidentemente, essa concepção
acaba por funcionar, na prática, como uma racionalização
a posteriori do padrão de ocultação na manipulação
do real. Ora, o mundo real não se divide em fatos jornalísticos
e não-jornalísticos, pela primária razão de que
as características jornalística, quaisquer que elas sejam, não
reside no objeto de observação, e sim no sujeito observador e
na relação que este estabelece com aquele. O "jornalístico"
não é uma característica intrínseca do real em si,
mas da relação do jornalista, ou melhor, o órgão
do jornalismo, a imprensa, decide estabelecer com a realidade. Nesse sentido,
todos os fatos, toda a realidade pode ser jornalística, e o que vai tornar
jornalístico um fato independe das suas características reais
intrínsecas, mas depende, sim, das características do órgão
de imprensa, da sua visão de mundo, da sua linha editorial, do seu projeto,
enfim, como se diz hoje. Por isso o padrão de ocultação
é decisivo e definitivo na manipulação da realidade: tomada
a decisão de que um fato não é jornalístico, não
há a menor chance de que o leitor tome conhecimento de sua existência
por meio da imprensa. O fato real foi eliminado da realidade, ele não
existe. O fato real ausente deixa de ser real para se tornar, se transformar
em imaginário. E o fato presente na produção jornalística,
real ou ficcional, passa tomar o lugar do fato real e a compor, assim, uma realidade
diferente da real, artificial criada pela imprensa.”
Padrão de inversão
“Fragmentado o fato em aspectos particulares, todos eles descontextualizados,
intervém o padrão da inversão, que opera o reordenamento
das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição
de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade
original e a criação artificial da outra realidade. É um
padrão que opera tanto no planejamento como na coleta e na transcrição
das informações, mas que tem seu reinado por excelência
no momento da preparação e da apresentacão final, ou da
edição, de cada matéria ou conjunto de matérias.
Há várias formas de inversão. Frequentemente muitas delas
são usadas na mesma matéria; em quase todas as matérias
ocorre uma ou outra inversão. As principais são:
3.1. Inversão da relevância dos aspectos: o secundário é apresentado como o principal e vice-versa; o particular pelo geral e vice-versa; o acessório e supérfluo no lugar do importante e decisivo; o caráter adjetivo pelo substantivo; o pitoresco, o esdrúxulo, o detalhe, enfim, pelo essencial.
3.2. Inversão da forma pelo conteúdo: o texto passa a ser mais importante que o fato que ele reproduz; a palavra, a frase, no lugar da informação; o tempo e o espaço da matéria .... predominando sobre a clareza da explicação; o visual harmónico sobre a veracidade ou a fidelidade; o ficcional espetaculoso sobre a realidade.
3.3. Inversão da versão pelo fato: não é o fato em si que passa a importar, mas a versão que dele tem o órgão de imprensa, seja essa versão originada no próprio órgão de imprensa, seja adotada ou aceita de alguém da fonte das declarações e opiniões. O órgão de imprensa praticamente renuncia a observar e expor os fatos mais triviais do mundo natural ou social e prefere, em lugar dessa simples operação, apresentar as declarações, suas ou alheias, sobre esses fatos. Frequentemente, sustenta as versões mesmo quando os fatos as contradizem. Muitas vezes, prefere engendrar versões e explicações opiniáticas cada vez mais complicadas e nebulosas a render-se à evidência dos fatos. Tudo se passa como se o órgão de imprensa agisse sob o domínio de um princípio que dissesse: se o fato não corresponde à minha versão, deve haver algo errado com o fato.
3.3.1. Um dos extremos desse padrão de inversão é o frasismo, o abuso da utilização de frases ou de pedaços de frases sobre uma realidade para substituir a própria realidade. Acoplado às demais formas de manipulação - ocultação, fragmentação, seleção, descontextualização, várias inversões etc. -, o frasismo surge, assim, quase como a manipulação levada aos seus limites: uma frase, um trecho de frase, às vezes uma expressão ou uma palavra, são apresentados como a realidade original. O abuso é tão excessivo que quase todos os grandes órgãos de imprensa chegam a criar uma "se-ção de frases", isto é, uma realidade robótica, extraterrena, pura ficção, embora - e aí a gravidade da manipulação - parecendo-se ao máximo com a mais pura forma de realidade, porque, afinal, aquelas palavras foram ditas por aquelas pessoas e fielmente registradas, de preferência com gravador, e literalmente transcritas.
3.3.2. O outro extremo da inversão do fato pela versão é o oficialismo, expressão aqui utilizada para indicar a fonte "oficial" ou "mais oficial" de qualquer segmento da sociedade, e não apenas as autoridades do Estado ou do governo. No lugar dos fatos uma versão, sim, mas de preferência a versão oficial. A melhor versão oficial é a da autoridade, e a melhor autoridade, a do próprio órgão de imprensa. À sua falta, a versão oficial da autoridade cujo pensamento é o que mais corresponda ao do órgão de imprensa, quando se trata de apresentar uma realidade de forma "positiva", isto é, de maneira que o leitor não apenas acredite nela mas a aceite e adote. A autoridade pode ser o presidente da República, o governador do estado, o reitor da universidade, o presidente do centro académico, do sindicato, do partido político ou de uma sociedade de amigos de bairro. Ela sempre vale mais do que as versões de autoridades subalternas, sempre muito mais que a dos personagens que não detêm qualquer forma de autoridade e, evidentemente, sempre infinitamente mais do que a realidade. Assim, o ofícialismo se ransforma em autoritarismo.
3.4. Inversão da opinião pela informação. A utilização sis-emática e abusiva de todos esses padrões de manipulação eva quase inevitavelmente a outro padrão: o de substituir, nteira ou parcialmente, a informação pela opinião. Deve-se destacar que não se trata de dizer que, além da informação, órgão de imprensa apresenta também a opinião, o que seja justo, louvável e desejável, mas sim que o órgão de imprensa apresenta a opinião no lugar da informação, e com a gravante de, fazer passar a opinião pela informação. O juízo 0 valor é inescrupulosamente utilizado como se fosse um ’ízo de realidade, quando não como se fosse a própria mera ;posição narrativa/descritiva da realidade. O leitor/espectador não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconheceporque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e esca-iteado pelo órgão. Essa inversão é operada pela negação, total ou quase ai, da distinção entre juízo de valor e juízo de realidade, :re o que já se chamou de "géneros jornalísticos", ou seja, um lado a notícia, a reportagem, a entrevista, a cobertura, loticiário, e, de outro, o editorial, o artigo, formas de eensão e compreensão do real que, coexistentes numa sma edição ou programação, se completavam entre si e reciam ao leitor alternativas de formar sua (do leitor) nião, de maneira autónoma e independente. Hoje, exatamente ao contrário, o fato é apresentado ao leitor arbitrariamente escolhido dentro da realidade, fragmentado no seu interior, com seus aspectos correspondentes selecionados e descontextualizados, reordenados invertidamente quanto a sua relevância, seu papel e seu significado, e, ainda mais, tendo suas partes reais substituídas por versões opiniáticas dessa mesma realidade. O jornalismo, assim, não reflete nem a realidade nem essa específica parte da realidade que é a opinião pública ou do seu público. Ao leitor/espectador, assim, não é dada qualquer oportunidade que não a de consumir, introjetar e adotar como critério de ação a opinião que lhe é autoritariamente imposta sem que lhe sejam igualmente dados os meios de distinguir ou verificar a distinção entre informação e opinião. Esta se introduz ... subrepticiamente no meio da matéria, substitui ou prepondera sobre a informação, e passa a ser não apenas o eixo principal da matéria, mas sua principal ou única justificativa de existência como matéria jornalística, como objeto de produção e de edição, apresentação e veiculação. A informação, quando existe, serve apenas de mera ilustração exemplificadora da opinião adrede formada e definida - a tese - e que, esta sim, se quer impor à sociedade. Essa particular inversão da opinião sobre a informação pode às vezes assumir caráter tão abusivo e absoluto que passa a substituir a realidade real até aos olhos do próprio órgão de informação. Não é incomum perceber que às vezes os responsáveis pêlos órgãos cometem erros - aí, sim, involuntários - porque passaram a acreditar integralmente nas matérias do próprio órgão, sem perceber que elas não correspondem à realidade.”
Padrão de indução
“É necessário repetir que os padrões de manipulação
até aqui descritos não ocorrem necessariamente em todas as matérias
e programas de todos os órgãos impressos,auditivos ou televisivos,
diariamente ou periodicamente. É possível encontrar, diariamente,
um grande número de matéria sem que esses processos de manipulação
não existam ou existam em grau mínimo, e também encontrar
certo número de matérias em que as distorções da
realidade são frutos de erros involuntários ou de limitações
naturais à capacidade de captar e transmitir informações
sobre a realidade. É possível até, que o número
de matérias em que tal ocorra seja eventualmente superior ao daquelas
em que seja possível identificar a existência de padrões
de manipulação. E, finalmente, deve-se levar em conta, também,
a variação da intensidade de utilização da manipulação
segundo o órgão em exame ou o assunto, o tema ou a "editoria"
de cada órgão. Mas o que torna a manipulação um
fato essencial e característico da maioria da grande imprensa brasileira
hoje é que a hábil combinação dos casos, dos momentos,
das formas e dos graus de distorção da realidade submete, em geral
... ou em seu conjunto, a população à condição
de excluída da possibilidade de ver e compreender a realidade real e
a induza a consumir outra realidade, artificialmente inventada. É isso
que chamo de padrão de indução. Sumetido, ora mais, ora
menos, mas sistematicamente e constantemente, aos demais padrões de manipulação,o
leitor é induzido a ver o mundo não como ele é, mas sim
como querem que ele veja. O padrão de indução é,
assim, o resultado e ao mesmo tempo impulso final da articulação
combinadade outros padrões de manipulação dos vários
órgãos de comunicação com os quais ele tem contato.
O padrão de indução tem a ver, como os demais, com os processos
de planejamento, produção e edição do material jornalístico,
mas ultrapassa esses processos e abarca, ainda, os planos de apresentação
final, no parque gráfico ou nas instalações de radiodifusão,
distribuição, índices de tiragem e audiência de publicidade
etc. - ou seja, os planos de produção jornalística como
parte da indústria cultural e do emprendimento empresarial-capitalista.
A indução a enxergar a outra realidade - diferente e até
oposta à realidade real - é o fruto da manipulação
do conjunto dos meios de comunicação, em que cada qual, individualmente,
tem a sua parte, e em que evidentemente a parte preponderante e de maior responsabilidade
deve ser atribuída aos maiores meios de comunicação, isto
é, aos mais poderosos, aos que têm maior tiragem e audiência,
aos que têm e ocupam maiores espaços, aos que veiculam mais publicidade,
Em outras palavras, aos melhores. A indução se manifesta pelo
reordenamento ou pela recontextualização dos fragmentos da realidade,
pelo subtexto - aquilo que é dito sem ser falado - da diagramação
e da programação, das manchetes e notícias, dos comentários,
dos sons e das imagens, pela presença/audiância de temas, segmentos
do real, de grupos da sociedade e de personagens. Alguns assuntos mais, ou quase
nunca, são tratados pela imprensa, enquanto outos aparecem quase todos
os dias. Alguns segmentos sociais são vistos pela imprensa apenas sob
poucos ângulos, enquanto permanece na obscuridade toda a complexa riqueza
de suas vidas e atividades. Alguns personagens jamais aparecem em muitos órgãos
de comunicação, enquanto outros comparecem abusivamente, à
saciedade, com uma irritante e enjoativa freqüência. Alguns aspectos
são sistematicamente relembrados na composição das matérias
sobre determinados grupos sociais, mas igualmente evitados de forma sistemática
quando se trata de outros. Depois de distorcida, retorcida e recriada ficcionalmente,
a realidade é ainda assim dividida pela imprensa em realidade de campo
do Bem e realidade do campo do Mal, e o leitor/espectador é induzido
a acreditar não só que seja assim, mas que assim será eternamente,
sem possibilidade de mudança.”
Padrão de fragmentação
“Eliminados os fatos definidos como não- jornalísticos,
o resto da realidade é apresentada pela imprensa ao leitor como uma realidade,
com suas estruturas e interconexões, sua dinâmica e seus movimentos
e processos próprios, sua causas, suas condições e suas
conseqüências. O todo real é estilhaçado, despedaçado,
fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados, na
maior parte dos casos desconectados entre si, despojados de seus vínculos
com o geral, desligados de seus antecedentes e de seus conseqüentes no
processo em que ocorrem, ou reconectados e reinculados de forma arbritária
e que não corresponde aos círculos reais, mas a outros ficcionais
e artificialmente inventados. Esse padrão também se operacionaliza
no momento do planejamento da pauta, mas principalmente no da busca da informação,
no da elaboração do texto, das imagens e dos sons, e no de sua
apresentação, a edição. O padrão de fragmenação
implica duas operações básicas: a seleção
de aspectos, ou particularmente, do fato e a descontextualização.
A seleção de aspectos do fato que é objeto da atenção
jornalística obedece a princípios semelhantes aos que ocorrem
no padrão de ocultação. Embora tenha sido escolhido como
um fato jornalístico e, portanto, digno de merecer estar na produção
jornalística, o fato é decomposto, atomizado, dividido em particularidades
ou aspectos, e a imprensa seleciona os que apresentará ou não
ao público. Novamente, os critérios para seleção
não residem necessariamente na natureza ou nas características
do fato decomposto, mas sim nas decisões, na linha, no projeto do órgão
de imprensa, que são transmitidos, impostos ou adotados pelos jornalistas
desse órgão. A descontextualização é uma
decorrência da seleção de aspectos. Isolados como particularidades
de um fato, o dado, a informação, a declaração perdem
todo o seu significado aparente, ou recebe outro significado, diferente e mesmo
antagônico ao significado real original. A fragmentação
da realidade em aspectos, a eliminação de uns e a manutenção
de outros e a descontextualização dos que permanecem são
essenciais, assim, à distorção da realidade e à
criação artificial de uma outra realidade. ”
Fonte: http://www.pontodevista.jor.br